"Não basta garantir que não haverá despedimentos": trabalhadores exigem plano para salvar a Estoril Sol
Os trabalhadores da Estoril Sol exigem à administração um plano para garantir a viabilidade da empresa e da concessão dos casinos do Estoril e de Lisboa, depois de o Relatório e Contas de 2025 revelar um prejuízo de 17,9 milhões de euros e prever uma reestruturação. O sindicato admite avançar para novas formas de luta, incluindo a greve, caso a empresa continue sem prestar esclarecimentos.
Os trabalhadores da Estoril Sol concentraram-se esta Quinta-feira junto ao Casino Estoril para exigir esclarecimentos sobre a situação financeira da empresa, depois de o Relatório e Contas de 2025 revelar um prejuízo de 17,9 milhões de euros e prever uma provisão de 3,3 milhões para uma reestruturação. As organizações representativas dos trabalhadores receiam que o processo possa colocar em causa os postos de trabalho e pedem a intervenção do Governo.
O Sindicato de Hotelaria do Sul e a Comissão Unitária de Trabalhadores da Estoril Sol III alertam que o relatório, divulgado após sucessivos adiamentos, traça um “quadro preocupante” para a concessionária do Casino Estoril e do Casino Lisboa.
Além do agravamento dos prejuízos, de 4,8 milhões de euros em 2024 para 17,9 milhões em 2025, o documento aponta para a necessidade de reforçar os capitais próprios em cerca de 35 milhões de euros para cumprir as exigências da Lei do Jogo e reconhece imparidades no valor de 13,2 milhões de euros.
O Sindicato de Hotelaria do Sul acusa ainda a administração de não ter prestado qualquer esclarecimento aos trabalhadores sobre a situação financeira da empresa ou sobre a reestruturação prevista no relatório.
“A informação oficial transmitida quer ao Sindicato de Hotelaria do Sul, quer à Comissão Unitária de Trabalhadores, quer aos trabalhadores individualmente, é nenhuma. Não há qualquer esclarecimento nem qualquer explicação oficial. Tudo aquilo de que tivemos conhecimento foi através dos órgãos de comunicação social”, afirmou o dirigente sindical Luís Baptista.
O responsável considera que essa falta de informação é uma das principais críticas dirigidas à administração. “Até este momento, a comissão executiva e a administração da empresa não tiveram a disponibilidade de se sentar com os representantes dos trabalhadores para fazer uma explicação clara da situação, mas também para partilhar connosco aquilo que pensam poder ser os caminhos e as soluções para resolver os problemas”, acrescentou.
Dois anos de “indisponibilidade” para reunir
Luís Baptista afirma que a falta de diálogo entre a administração e os representantes dos trabalhadores não é recente. Segundo o dirigente sindical, a atual comissão executiva tem recusado reunir com as estruturas representativas “nos últimos dois anos”.
“Tem havido uma enorme dificuldade em reunir com os responsáveis da empresa para abordar os vários assuntos que preocupam os trabalhadores. Nem sequer houve negociações para aumentos salariais ou para a revisão dos instrumentos de regulamentação coletiva, porque a administração tem sido indisponível para reunir”, afirmou.
O responsável diz que, perante os resultados apresentados no Relatório e Contas de 2025, esperava uma mudança de atitude por parte da empresa. “Com uma situação tão grave como aquela que foi tornada pública, os trabalhadores esperavam que a administração estivesse disponível para conversar. Mas isso não se verificou. Mantém-se um comportamento de indisponibilidade para dialogar com os trabalhadores e os seus representantes, mesmo com a gravidade desta situação”, concluiu.
Além dos empregos, está em causa o futuro da concessão
As organizações representativas dos trabalhadores centram grande parte das preocupações na provisão de 3,3 milhões de euros destinada a uma reestruturação com redução permanente dos custos operacionais. Segundo defendem, o relatório não explica em que consistirá esse processo, levantando dúvidas sobre a possibilidade de despedimentos coletivos, reorganização de serviços, eliminação de estruturas ou outras medidas de redução de custos.
Luís Baptista sublinha que um eventual compromisso da empresa de não avançar com despedimentos seria um passo importante, mas insuficiente para dissipar as preocupações dos trabalhadores.
“Isso tranquiliza-nos em certa medida, mas não é suficiente, porque é preciso garantir a viabilidade e a continuação do negócio e da própria concessão”, afirmou.
Segundo o dirigente sindical, os trabalhadores pretendem conhecer a estratégia da empresa para os próximos anos.
“Queremos saber qual é o caminho que vai ser seguido, porque para nós é essencial não só a manutenção dos postos de trabalho e evitar um despedimento coletivo, mas também garantir a manutenção da concessão e a viabilidade do negócio”, acrescentou.
Trabalhadores reclamam aumentos salariais
Luís Baptista defende ainda que a recuperação financeira da Estoril Sol não pode ser alcançada à custa dos rendimentos dos trabalhadores.
“Mesmo que não haja despedimentos, é importante que haja valorização salarial dos trabalhadores. Os trabalhadores não têm aumentos dignos há vários anos”, afirmou.
Segundo o dirigente sindical, o subsídio de alimentação e outros complementos remuneratórios também não são atualizados “há pelo menos dois anos”. “É preciso que esta reestruturação não seja feita à custa do encurtar do rendimento dos trabalhadores”, concluiu.
Sindicato quer avaliação à gestão da Estoril Sol
Além de pedir respostas à administração, as organizações representativas dos trabalhadores apelam à intervenção do Governo, através do secretário de Estado do Turismo, e do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ).
Luís Baptista defende que as entidades competentes devem apurar as razões que levaram ao agravamento das contas da Estoril Sol e avaliar a gestão da empresa. “O Governo não se pode pôr fora deste problema. Tem de fazer uma avaliação sobre porque é que há este prejuízo e estas dificuldades económicas”, afirmou.
O dirigente sindical considera que importa esclarecer “se a Estoril Sol fez uma gestão equilibrada e responsável da concessão ou se poderá ter existido uma gestão danosa”. Na sua perspetiva, essa avaliação deve ser conduzida pelo SRIJ e pela tutela do setor, através da Secretaria de Estado do Turismo.
Luís Baptista considera ainda que o Governo deve avaliar se o atual caderno de encargos da concessão continua adequado à realidade do setor.
“Não sabemos se há necessidade de o alterar ou não. O que defendemos é que o Governo tem de fazer essa avaliação e perceber se as regras que hoje enquadram estas concessões continuam a fazer sentido ou se há aspetos que merecem ser revistos”, afirmou.
Luís Baptista adiantou ainda que as organizações representativas dos trabalhadores têm duas reuniões já agendadas para discutir a situação da empresa. A primeira realiza-se a 10 de Setembro, na Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT), e contará com a presença da empresa. A segunda está marcada para 16 de Setembro com o secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado.
Greve está em cima da mesa
Os trabalhadores aprovaram ainda um conjunto de novas formas de protesto para pressionar a administração da Estoril Sol.
Está marcada uma concentração para 21 de Agosto, junto ao Casino Estoril, coincidindo com a Assembleia Geral de Acionistas, na qual será entregue uma carta a pedir a intervenção dos acionistas na atual situação da empresa.
Além disso, as organizações representativas dos trabalhadores admitem realizar plenários durante períodos de maior afluência aos casinos, como sextas-feiras e sábados à noite, para chamar a atenção dos clientes para as reivindicações dos trabalhadores.
O dirigente sindical acrescentou que o plenário desta quinta-feira mandatou o Sindicato de Hotelaria do Sul e a Comissão de Trabalhadores para recorrerem “a todas as formas de luta que forem necessárias”, incluindo a greve, caso a administração mantenha a atual posição de não dialogar com os representantes dos trabalhadores.
