Não é a primeira vez nem será a última, se nada for feito, que a Linha de Cascais está em risco (fotografia LPP)
O percurso ciclopedonal entre Algés e a Cruz Quebrada voltou a ceder, colocando a água mais perto da linha ferroviária. A circulação de comboios na Linha de Cascais foi substancialmente reduzida. A reparação do passeio vai arrancar nesta semana, mas a criação de um terrapleno é urgente.
“Até aviso em contrário, os comboios com destino a Cascais ou Cais do Sodré efectuam-se de 30 em 30 minutos com paragem em todas as estações.” A mensagem transmitida pelos altifalantes nas estações da Linha de Cascais é clara: independentemente da hora e do dia da semana, os comboios circulam de meia em meia hora entre Lisboa e Cascais. Trata-se de uma redução significativa da oferta, em particular nos períodos de ponta.
O motivo prende-se com um novo abatimento do percurso ciclopedonal entre Algés e Cruz Quebrada na sequência das tempestades que têm assolado o nosso país e da consequente subida do nível do mar. Não são novos os abatimentos desta infraestrutura – que tem sido reparada praticamente todos os anos pela Câmara de Oeiras –, mas, desta vez, os danos foram tais que chegaram muito perto da linha de comboio. O percurso está mesmo interrompido e há detritos do mesmo, assim como lixo do mar e pedras junto à linha ferroviária.
Tal situação motivou a gestora da linha, a Infraestruturas de Portugal (IP), a restringir a circulação dos comboios na zona afectada, ou seja, entre as estações de Algés e de Caxias (a estação seguinte à de Cruz Quebrada). No fundo, a circulação ferroviária está a fazer-se apenas por uma via entre essas duas estações o que leva a “uma redução da oferta, em hora de ponta, para cerca de 25% do habitual”, informa a IP em comunicado, justificando a decisão com as “condições meteorológicas adversas” e com a necessidade de “garantir a segurança de todos os envolvidos”. “A evolução das condições da infraestrutura continuará a ser acompanhada, de forma permanente, por equipas no terreno”, indica a IP.
Redução de 25-33% da oferta
A diminuição da oferta é significativa. Se em horas de ponta costuma haver comboios a cada 5-10 minutos na malha urbana entre Lisboa e Oeiras, entre comboios rápidos e comboios que param em todas as estações, fora desses horários há circulações a cada 20 minutos. Neste momento, a CP está a operar a Linha de Cascais apenas com comboios lentos (que param em todas as estações) a cada 30 minutos, tendo suprimido as circulações rápidas.
Esta situação, em vigor desde dia 5 e sem prazo de término, tem deixado os passageiros chateados: por um lado, comboios de meia em meia hora numa linha urbana rodeada de população é uma oferta muito escassa; por outro, deixou de haver serviços rápidos de ligação a Lisboa. O resultado tem sido estações cheias e comboios à pinha, principalmente nas horas de ponta, conforme indicam relatos nas redes sociais e como se pode constatar no local.
O jornalista Carlos Cipriano escreve no Público que a linha tem condições técnicas para, mesmo com uma única via a funcionar entre Algés e Caxias, poder assegurar-se uma oferta de comboios a cada 20 minutos. O jornalista especializado em ferrovia escreve que esta possibilidade foi pensada nos anos 1960 aquando da modernização da infraestrutura. Ao cronometrar vários comboios, Carlos Cipriano verificou que nenhum demora mais que 9:40 minutos a fazer o trajecto entre Algés e Caxias. Com comboios de 20 em 20 minutos, a CP estaria a assegurar 50% da oferta habitual da Linha de Cascais e não 25-33%.
Actualização: CP reforça a partir de Segunda-feira
A partir de Segunda-feira, 15 de Fevereiro, a CP vai reforçar a oferta na Linha de Cascais com novos comboios entre as estações Cais do Sodré e Algés e entre as estações Oeiras e Cascais, mantendo-se a oferta de 30 em 30 minutos entre Cais do Sodré e Cascais. Passam a existir duas circulações por hora entre Cais do Sodré e Algés e duas circulações por hora entre Oeiras e Cascais às horas de ponta da manhã e da tarde, com paragem em todas as estações.
Isaltino insiste no prolongamento do terrapleno
Quanto ao percurso ciclopedonal entre Algés e Cruz Quebrada, Isaltino Morais, Presidente da Câmara de Oeiras, garantiu já que uma vez mais o Município de Oeiras vai assegurar a reparação da infraestrutura. As obras vão iniciar-se no próximo dia 18 de Fevereiro, vão durar dois meses e custar cerca de 400 mil euros.

“Há mais de 10 anos que a Câmara Municipal (de Oeiras) quer alargar este terrapleno aqui nesta zona do rio”, diz Isaltino Morais num vídeo publicado no Instagram, explicando que esse enchimento criaria “uma protecção para o caminho de ferro”. “Pois bem, durante 10 anos, nem Porto de Lisboa, nem Infraestruturas de Portugal, nem CP, nem APA fizeram o que quer que seja. Pelo contrário, impediram que a Câmara Municipal fizesse”, lamenta o autarca.
“Ora, o que é que aconteceu agora com estas tempestades?”, prossegue no vídeo. “Agora, são as Infraestruturas de Portugal e a CP que pedem à Câmara Municipal para fazer esta obra de consolidação desta área aqui, justamente no sentido de evitar o colapso da linha”, explicou Isaltino. “Ora, porquê não resolver este problema de vez?”
O prolongamento do actual terrapleno de Algés, onde se realiza todos os anos o festival NOS Alive, está previsto no âmbito do projecto Ocean Campus, estudado desde pelo menos 2019 e integrado recentemente no pacote do Parque Cidades do Tejo. A concretização desse prolongamento significa, no fundo, encher de terra a área entre Algés e Caxias de forma a criar uma área plana e extensa que afaste a água do mar da costa, em particular da Linha de Cascais.
Segundo Isaltino, “é preciso fazer um investimento na ordem dos dois milhões de euros, que a Câmara Municipal também está disponível para fazer”, para solucionar o problema em “de uma vez por todas”. A resolução imediata e de curto prazo consiste em repor a barreira de terra junto à linha ferroviária e o percurso ciclopedonal – obra que a Câmara vai fazer, apesar de Isaltino referir que a responsabilidade dessa empreitada caberia à IP.
Associação Evoluir Oeiras pede autocarros alternativos
Entretanto, numa carta endereçada ao Presidente da Câmara de Oeiras e também ao Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, e à Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, a associação cívica e ambientalista Evoluir Oeiras pediu ambição na resolução do problema costeiro da linha de comboio entre Algés e Cruz Quebrada. “É hoje claro que existe um problema estrutural na infraestrutura ferroviária, resultante das ou agravado pelas recentes tempestades”, indica a associação, referindo que “é muito importante” que a nova reparação de curto prazo “não se limite a mais um remendo e seja realizada uma obra de fundo, que tenha em conta a dinâmica costeira e os cada vez mais frequentes fenómenos climáticos extremos”.
Pedindo a “intervenção dos ministérios do Ambiente e das Infraestruturas” e também do Município, o Evoluir Oeiras salienta que o serviço na Linha de Cascais vai continuar “gravemente comprometido em termos de horários, tempos de percurso e capacidade de resposta” durante qualquer obra e pede a criação de serviços alternativos de transporte, nomeadamente a criação de faixas BUS temporárias na Avenida Marginal para autocarros, e um reforço de carreiras rodoviárias a assegurar o percurso da Linha de Cascais enquanto persistirem os constrangimentos ferroviários.
As Infraestruturas de Portugal e o Ministério das Infraestruturas, liderado por Miguel Pinto Luz, já foram questionados, sobre este assunto, pela comunicação social.
